Drawdown vs. volatilidade: o que medir, quando
Volatilidade é simétrica. Drawdown é o que dói. Como pensar nos dois — e por que prefiro drawdown quando a estratégia é direcional.
Quando alguém te mostra uma estratégia com "+30% no ano", a primeira pergunta não é se é verdade. É: com quanta volatilidade?
Dois investidores podem ter terminado o ano com +30%. Um teve uma trajetória tranquila — subiu mais ou menos linear, dormiu bem todas as noites, máximo drawdown de −5%. O outro teve uma montanha-russa: caiu −22% em maio, ficou no zero a zero por três meses, e só recuperou na arrancada de outubro. Mesmo retorno final, experiências completamente diferentes.
O que o Sharpe está medindo
Em uma frase: retorno por unidade de risco. A fórmula é simples:
Você desconta o retorno que daria pra ter sem risco (no Brasil, costuma-se usar a Selic), e divide pela volatilidade. O número que sai é quanto de retorno extra você está ganhando por cada unidade de incômodo.
Para contextualizar: o Ibovespa historicamente tem Sharpe entre 0,3 e 0,5. Fundos quantitativos bons ficam entre 1,0 e 1,5. Estratégias verdadeiramente exemplares passam de 2,0. Acima de 3,0, desconfie — geralmente é backtest mal feito.
No marketplace QuantHub, todo card de estratégia mostra Sharpe ao lado do retorno. Use-o pra comparar — uma estratégia com Sharpe 2,1 e retorno 12% é tipicamente preferível a uma com Sharpe 0,9 e retorno 18%.
O que o Sharpe esconde
Sharpe assume que retornos seguem uma distribuição normal. Mas mercados não são normais — fat tails existem, e crises são piores do que a estatística sugere. Por isso o Sharpe sozinho é insuficiente.
Três métricas complementares que sempre olhamos junto:
- Sortino — como Sharpe, mas penaliza só desvio negativo. Mais relevante quando a estratégia é assimétrica (ex: opções vendidas).
- Max drawdown — o pior tombo histórico. Esta é a métrica que prediz se você vai aguentar segurar a estratégia em mar revolto.
- Calmar — retorno anualizado dividido pelo max drawdown. Muito útil pra comparar estratégias direcionais.
Como usar na prática
Quando avaliar uma estratégia, faça três perguntas, nessa ordem:
- O Sharpe é maior que 1,0? Se não, geralmente o jogo não compensa o risco.
- O max drawdown é compatível com o seu estômago? Não com seu plano racional — com o seu estômago de verdade, no mês em que a tela está vermelha.
- A estratégia é descorrelacionada do que você já tem? Sharpe agregado de carteira sobe muito mais com baixa correlação do que com alto retorno individual.
É um filtro grosseiro, mas funciona. Sharpe não é a única métrica que importa — mas é a primeira que importa.